UM MANIFESTO PELA TERRA

Traduzido por Alexandra Marcelino


Sobre os autores

Ted Mosquin tem um doutoramento em "Sistemas e Evolução" da UCLA. Foi durante 12 anos investigador científico na área de Agricultura, em Ottawa, no Canadá, e ensinou nas universidades de Alberta e da Califórnia, Berkeley. Foi editor da The Canadien Field - Naturalist and Biodiversity. É autor ou co-autor de quatro livros e de cerca de 100 artigos científicos e não científicos sobre ecologia, história natural, espécies em vias de extinção, biodiversidade e ética ambiental. O recente artigo: "The Roles of Biodiversity in Creating and Maintaining the Ecosphere", disponível emhttp://www.ecospherics.net/pages/MosqEcoFun5.html, sintetiza parte do fundamento deste Manifesto. Ted foi também Presidente e Director de várias organizações de defesa do ambiente canadianas, de âmbito nacional e regional (mais detalhes em: www.ecospherics.net/pages/aboutauthors.html).

Stan Rowe ( 11.06.1918 - 06.04.2004) estudou ecologia nas universidades de Alberta, Nebraska e Manitoba. Foi durante 12 anos investigador em Silvicultura, no Canadá, professor na universidade de Saskatchewan, e professor emérito desde 1985. Geo-ecologista e ambientalista ético com formação em silvicultura e em ecologia da paisagem, escreveu "Forest Regions of Canada" (1959), e "Home Place: Essays on Ecology (neWest Press", Edmonton, 1990; re-editado em 2002), bem como, numerosos artigos, capítulos de livros e revisões. Alguns dos seus artigos sobre ecologia e ética estão disponíveis em www.ecospherics.net. Foi membro de diversos conselhos consultivos de organizações ambientais. (Mais detalhes biográficos em: http://ecospherics.net/pages/aboutauthors.html).

PREÂMBULO

Muitos movimentos artísticos e filosóficos produziram Manifestos, proclamando verdades que, para os seus autores eram tão evidentes como os cinco dedos das suas mãos. Este Manifesto também afirma verdades evidentes por si mesmas, tão óbvias para nós como as maravilhosas cinco partes constituintes do meio ambiente - terra, ar, água, fogo/luz solar e organismos - em que vivemos, nos movemos e temos o nosso ser. O Manifesto é centrado na Terra. Ele muda os valores de referência da humanidade para a ecosfera envolvente - esta rede de estruturas e processos orgânicos/inorgânicos/simbióticos que constituem o planeta Terra.

A ecosfera é a matriz dadora de Vida que envolve todos os organismos, intimamente entrelaçada com eles na história da evolução, desde o começo dos tempos. Os organismos são constituídos por ar, água e sedimentos que, por sua vez, são portadores de impressões orgânicas. A composição da água do mar é mantida por organismos que, ao mesmo tempo, estabilizam a improvável atmosfera. As plantas e os animais formaram o calcário nas montanhas, de cujos sedimentos são feitos os nossos ossos. As divisões falsas que estabelecemos entre vivo e não-vivo, biótico e abiótico, orgânico e inorgânico colocaram em risco a estabilidade e o potencial evolutivo da ecosfera.

O modo de vida da humanidade, adoptado há 10 000 anos, feito a expensas da Natureza, e que culminou na globalização económica, está a falhar. A principal razão é a de havermos colocado a importância da nossa espécie acima de tudo o mais. Considerámos, erradamente, a Terra, os seus ecossistemas, e as suas miríades de componentes orgânicos e inorgânicos como meros abastecedores, valorados apenas enquanto servidores das nossas necessidades e desejos. É urgente uma mudança corajosa de atitude e de actividade. Os diagnósticos e as receitas para a cura da relação entre a humanidade e a Terra são imensos, e aqui enfatizamos uma ideia visionária que nos parece ser essencial para o sucesso de todas as outras. Uma nova cosmovisão ancorada na Ecosfera planetária aponta o caminho.

DECLARAÇÃO DE CONVICÇÕES

Todos procuram um propósito para a vida, convicções compreensivas que podem revestir várias formas. Muitos olham para crenças que ignoram ou menosprezam a importância deste mundo, não realizando de modo profundo que nascemos da Terra e que é ela que nos sustém ao longo das nossas vidas. Na cultura industrial dominante dos nossos dias, a Terra como casa não constitui uma percepção evidente. Poucos se dão ao trabalho de diariamente parar para considerar com um sentido de maravilhamento a matriz envolvente de onde viémos e para a qual, a final, todos retornaremos. Porque somos parte da Terra, a harmonia das suas terras, mares, céus e dos seus incontáveis e belos organismos contém profundos significados escassamente compreendidos.

Estamos convencidos de que, enquanto a Ecosfera não for reconhecida como o fundo comum indispensável a todas as actividades humanas, os seres humanos continuarão a colocar os seus interesses imediatistas em primeiro lugar. Sem uma perspectiva ecocêntrica que ancore valores e propósitos numa realidade mais ampla que a da nossa espécie, a resolução dos conflitos políticos, económicos e religiosos será impossível. Enquanto o foco estreito nas comunidades humanas não for ampliado ao ponto de incluir os ecossistemas da terra - os espaços, locais e/ou regionais, em que vivemos - os projectos para modos de vida saudáveis e sustentáveis falharão.

Uma ligação confiante com a Ecosfera, uma empatia estética com a Natureza circundante, um sentimento de assombro pelo milagre da Terra Viva e das suas misteriosas harmonias, é a herança humana menos reconhecida ou em grande parte não reconhecida. Se compreendida e estabelecida de novo, a nossa conexão com o mundo natural começará a preencher o vazio das vidas vividas no mundo industrializado. E ressurgirão importantes propósitos ecológicos que a civilização e a urbanização obscureceram. O objectivo é a restauração da diversidade e da beleza da Terra, com a nossa espécie pródiga actuando, de novo, como um membro cooperativo, responsável e ético.

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

PRINCÍPIO 1. A Ecosfera é o valor central para a humanidade

PRINCÍPIO 2. A criatividade e a fecundidade dos ecossistemas da Terra dependem da sua integridade

PRINCÍPIO 3. A visão ecocêntrica é confirmada pela História Natural

PRINCÍPIO 4. A ética ecocêntrica está ancorada na consciência do nosso lugar na Natureza

PRINCÍPIO 5. Uma visão ecocêntrica do mundo valoriza a diversidade dos ecossistemas e das culturas

PRINCÍPIO 6. A ética ecocêntrica é o sustentáculo da justiça social

PRINCÍPIOS DE ACÇÃO

PRINCÍPIO 7. Defender e preservar o potencial criativo da Terra

PRINCÍPIO 8. Reduzir a dimensão da população mundial

PRINCÍPIO 9. Reduzir o consumo humano de partes da Terra

PRINCÍPIO 10. Promover a governação ecocêntrica

PRINCÍPIO 11. Difundir a mensagem

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

PRINCÍPIO 1. A Ecosfera é o valor central para a humanidade.

A Ecosfera, o globo terrestre, é a fonte geradora da evolução criadora. Os organismos viventes emergiram dos ecossistemas orgânicos e inorgânicos do planeta: células bacterianas primeiro, e depois, eventualmente aquelas complexas confederações de células que são os seres humanos. Portanto, os ecossistemas dinâmicos presentes de forma intrincada e interconectada em todas as partes da Ecosfera, superam em valor e importância as espécies que (aquelas partes) contêm.

A realidade e o valor da existência ecológica ou exterior de cada ser humano atraiu escassa atenção por comparação com o profuso pensamento filosófico dedicado à interioridade do ser humano - o hodierno foco individualista que aparta a atenção das necessidades ecológicas e negligencia a importância vital da Ecosfera. Este antropocentrismo, estendido à sociedade como preocupação exclusiva com o bem-estar dos seres humanos, é uma doutrina de egoísmo especista destrutiva do mundo natural. O biocentrismo que estende a simpatia e a compreensão para além da raça humana, abrangendo outros organismos marca um avanço ético, mas o seu escopo é limitado. Falha em apreciar a importância da realidade ecológica como um Todo. Sem atenção à prioridade da Terra-como-contexto, o biocentrismo resvala facilmente para um antropocentrismo chauvinista, no seio do qual o ser humano é comummente considerado como o mais sábio e o melhor de todos os animais. O Ecocentrismo, enfatizando a Ecosfera como o sistema primevo dador-de-vida, em vez de mero suporte de vida, providencia o paradigma que deve nortear a humanidade para orientação futura.

Nós, humanos, somos expressões conscientes das forças geradoras da Ecosfera; a nossa experiência vital individual é inseparável do ar, da água, e da terra aquecidos pelo sol, e do alimento que outros organismos providenciam. Tal como todos os outros seres vivos nascidos da Terra, fomos "sintonizados" através de longa evolução com as suas ressonâncias, os seus ciclos rítmicos e as suas estações. Linguagem, pensamento, intuições - todos provêm directa ou metaforicamente da nossa existência física na Terra. Mais além da experiência consciente, cada ser humano corporifica uma inteligência, uma sabedoria inata do corpo que, sem recurso ao pensamento consciente, se ajusta a participar como parte simbiótica dos ecossistemas terrestres. A compreensão da realidade ecológica segundo a qual os seres humanos são terráqueos, muda o centro de valores do antropocentrismo para o ecocentrismo, do homo sapiens para o planeta Terra.

PRINCÍPIO 2. A capacidade de criar e a fecundidade dos ecossistemas da Terra dependem da sua integridade

"Integridade" refere-se a totalidade, a completude, à capacidade para funcionar em plenitude. O paradigma é dado pelos ecossistemas da Natureza, energizados pelo sol, no seu estado ainda intacto; por exemplo, uma parcela produtiva da plataforma continental marinha ou uma floresta pluvial temperada num tempo anterior à fixação dos seres humanos, quando estes eram principalmente recolectores. Pese embora tais tempos estejam para além de qualquer recordação, os seus ecossistemas (tanto quanto os podemos conhecer) ainda providenciam os únicos modelos conhecidos para a sustentabilidade na agricultura, na floresta e na pesca. Os problemas actuais em cada uma destas três actividades industriais mostram os efeitos da deterioração da sua integridade; nomeadamente, a perda de fecundidade e de beleza, a par da contínua disrupção das funções vitais dos ecossistemas.

A capacidade de criatividade evolutiva e a continuada fecundidade da Terra e dos seus ecossistemas regionais, requerem a continuidade das suas estruturas chave e dos seus processos ecológicos. Esta integridade interna depende da preservação das comunidades com as suas incontáveis formas evolutivas de cooperação e de interdependência; bem como de intrincadas cadeias de alimento e de fluxos energéticos, de solos não erodidos e do ciclo de matérias essenciais, tais como o nitrogénio, o potássio, e o fósforo. Adicionalmente, a composição natural do ar, dos sedimentos e da água são e têm sido parte integrante da saúde dos processos e funções da Natureza. A poluição destes três elementos somada à extracção e exploração dos constituintes orgânicos e inorgânicos, enfraquece a integridade dos ecossistemas e das leis que regem a Ecosfera, fonte da Vida em evolução.

PRINCÍPIO 3. A perspectiva ecocêntrica é confirmada pela História Natural

A História Natural é a história da Terra. Cosmólogos e geólogos referem que o início da Terra se deu há mais de quatro biliões de anos atrás - o aparecimento de pequenas criaturas marinhas nos primeiros sedimentos, a emergência de animais terrestres a partir do mar, a Idade dos Dinossauros, a evolução com influências mútuas de insectos, plantas com flores e mamíferos a partir dos quais, num tempo geológico recente, surgiram os primatas e a humanidade. Partilhamos material genético e uma ancestralidade comum com todas as outras criaturas que são parte integrante dos ecossistemas da Terra. Esta atraente narrativa situa a humanidade no seu contexto. As histórias da evolução da Terra ao longo de éons traçam a nossa co-evolução com miríades de organismos companheiros, através da cooperação e não apenas através da competição. A factualidade da co-existência orgânica revela o importantíssimo papel do mutualismo, da cooperação e da simbiose, dentro da grande sinfonia da Terra.

Mitos culturais e histórias que formaram as nossas atitudes e valores explicam de onde viémos, quem somos e para onde vamos, no futuro. Estas histórias têm sido fantasiosamente antropocentradas e/ou centradas num além-mundo. Em contraste, o relato baseado em evidências e numa observação exterior da história natural da humanidade - feita do pó das estrelas, dotada de vitalidade e sustentada pelos processos naturais da Ecosfera - não é apenas verosímil, mas muito mais maravilhosa do que os tradicionais mitos centrados no ser humano. Situando a humanidade no seu contexto como um componente orgânico do globo planetário, as narrativas ecocêntricas são reveladoras de um propósito funcional e de um fim ético; nomeadamente, o do ser humano como parte, ao serviço da totalidade maior da Terra.

Princípio 4. A ética ecocêntrica está ancorada na consciência do lugar que ocupamos na Terra

A ética diz respeito àquelas atitudes e acções inegoístas que fluem de valores profundos, ou seja, do sentido daquilo que é fundamentalmente importante. Uma apreciação profunda da Terra propicia um comportamento ético no que a ela respeita. A veneração pela Terra surge naturalmente com as experiências de contacto com a Natureza na infância, e, na idade adulta, é nutrida pela vivência em contacto com a Natureza, de tal maneira que as formas da terra, da água, das plantas e dos animais se volvem familiares como relações de vizinhança. A visão ecológica do mundo e a ética que encontra os seus valores primevos na Ecosfera extraem a sua força da exposição ao mundo natural ou semi-natural do ambiente rural, mais do que do urbano. A consciência do nosso estatuto neste mundo propicia maravilhamento, admiração e a resolução de restaurar, conservar e proteger as belezas antigas e as formas naturais da Ecosfera que sobreviveram à passagem do tempo através de éons.

O planeta Terra e os seus variados ecossistemas com os seus elementos matriciais - ar, solo, água, organismos - circundam e nutrem cada ser humano e cada comunidade, dando-lhes vida e tomando de volta tal dádiva, ciclicamente. A consciência de si mesmo como um ser ecológico, inter-dependente da água e de outros organismos, e como um animal imerso no espaço profundo, vivendo numa inter-acção produtiva aquecida pelo sol, onde se encontram a atmosfera e a terra/solo, aporta um sentido de conexão e de reverência pela abundância e vitalidade da Natureza, dadora da vida.

Princípio 5. Uma visão ecocêntrica do mundo valoriza a diversidade dos ecossistemas e das culturas

A maior revelação da perspectiva centrada na Terra é a espantosa variedade e riqueza dos ecossistemas e das suas partes constituintes orgânicas e inorgânicas. A superfície da Terra apresenta uma diversidade estética extremamente apelativa de ecossistemas árcticos, temperados e tropicais. Dentro deste mosaico global, a imensa variedade de plantas, animais e humanos é dependente da combinação de relevos, solos, água e climas locais. Assim, a biodiversidade, a diversidade de organismos, depende da manutenção da ecodiversidade, a diversidade dos ecossistemas. A diversidade cultural - uma forma de biodiversidade - é o resultado histórico da adaptação das actividades, pensamentos e linguagem dos seres humanos a ecossistemas geográficos específicos. Por conseguinte, o que quer que degrade e destrua ecossistemas é um perigo e uma desgraça tanto biológica quanto cultural. Uma visão ecocêntrica do mundo valoriza a diversidade da Terra em todas as suas formas, sejam não-humanas, sejam humanas.

Cada cultura humana do passado desenvolveu uma linguagem única enraizada estética e eticamente nas imagens, sons, fragâncias, sabores e sentimentos daquela singular parte da Terra que era a sua casa. Esta diversidade cultural ancorada nos ecossistemas era vital para promover modos de vida sustentáveis em diferentes partes da Terra. Nos dias de hoje, as linguagens ecológicas dos povos aborígenes e a diversidade cultural que representam estão tão ameaçadas como as espécies das florestas tropicais e pelas mesmas razões: o mundo está a ser homogeneizado, os ecossistemas simplificados, a diversidade está a declinar, a variedade está a perder-se. A ética ecocêntrica desafia a globalização económica de hoje que ignora a sabedoria ecológica incorporada e vivente nas diversas culturas, destruindo-as em favor do lucro de curto prazo.

Princípio 6. A ética ecocêntrica é o sustentáculo da justiça social

Grande parte das injustiças sociais presentes na sociedade humana assentam sobre a desigualdade e, enquanto tais, compreendem apenas um sub-conjunto de maiores injustiças e desigualdades causadas pelos seres humanos nos ecossistemas da Terra e nas suas espécies. Com a sua compreensão ampliada de comunidade, o Ecocentrismo enfatiza a importância de todos os componentes inter-conectados da Terra, incluindo muitos cujas funções são ainda largamente desconhecidas. Desta forma é reafirmado o valor intrínseco de todas as partes constituintes dos ecossistemas, orgânicos ou inorgânicos, sem inibir o seu uso cuidadoso. "Diversidade com Igualdade": uma lei ecológica ancorada no funcionamento da Natureza que providencia uma directriz ética para a sociedade humana.

Os ecologistas sociais criticam justamente a organização hierárquica vigente nas culturas que discriminam aqueles que não têm poder, em especial as mulheres e as crianças pobres. O argumento segundo o qual o progresso rumo a um modo de vida sustentável será impossível enquanto os avanços culturais não suavizarem as tensões decorrentes da injustiça social e da desigualdade de género está correcto apenas até certo ponto. Falha todavia em considerar que a rápida degradação em curso dos ecossistemas da Terra aumenta as tensões inter-humanas e, ao mesmo tempo, hipoteca as possibilidades de um modo de vida sustentável e a eliminação da pobreza. As questões de justiça social, se bem que importantes, não poderão ser resolvidas a menos que a hemorragia dos ecossistemas seja estancada, pondo-se termo às filosofias e às actividades antropocêntricas.

PRINCÍPIOS DE ACÇÃO

Princípio 7. Defender e preservar o potencial criativo da Terra

O poder criativo da ecosfera é expresso através da resiliência dos seus ecossistemas geográficos. Por conseguinte, a filosofia ecocêntrica exorta à preservação e restauração dos ecossistemas naturais e das espécies que os compõem como primeira prioridade. Salvo as colisões com planetas e asteróides que poderiam destruir o planeta, a inventividade evolutiva da Terra continuará por milhões de anos, obstaculizada apenas naqueles lugares onde os seres humanos destruíram ecossistemas inteiros através do extermínio de espécies ou do envenenamento dos sedimentos, da água ou do ar. A extinção permanente de partes da ecosfera elimina para sempre vertentes da rede orgânica, reduzindo a beleza da Terra e o potencial da futura emergência de ecossistemas únicos com os seus típicos organismos, alguns deles, possivelmente, de inteligência e sensibilidade superiores à humana.

"A primeira regra do conserto inteligente é salvar todas as partes" (Aldo Leopold - Sand County Almanaque). As acções que danifiquem a estabilidade e a saúde da Ecosfera e dos seus ecossistemas têm que ser identificadas e publicamente condenadas. Entre as mais destrutivas actividades humanas contam-se o militarismo e as suas despesas astronómicas e grotescas, a extracção de minérios tóxicos, o fabrico de venenos biológicos em todas as suas formas, a agricultura industrial, a pesca industrial e a florestação industrial. A menos que sejam travadas, tecnologias letais como estas, justificadas como sendo necessárias para protecção de específicas populações humanas, para enriquecimento de específicos interesses corporativos e para a satisfação de desejos humanos, mais do que de necessidades reais, conduzirão a inimagináveis desastres sociais e ecológicos.

Princípio 8. Reduzir a dimensão da população humana mundial

A causa principal da destruição dos ecossistemas e da extinção das espécies é o crescimento da população humana, que já excede largamente os níveis de sustentabilidade ecológica. A população mundial, actualmente nos 6 biliões e meio, aumenta a um ritmo inexorável de 75 milhões por ano. Cada ser humano adicional é um "utilizador" ambiental num planeta cuja capacidade para alimentar todas as suas criaturas é limitada. Em todos os territórios, a pressão demográfica continua a minar a integridade e a capacidade regenerativa dos ecossistemas terrestres, fluviais e marinhos. A monocultura humana esmaga e destrói a multiculturalidade da Natureza. O tamanho da população mundial deve ser reduzido, em cada país, mediante a diminuição da natalidade.

A ética ecocêntrica que valoriza a Terra e os seus sistemas evolutivos acima das espécies condena a aceitação social da fecundidade humana ilimitada. A actual necessidade de reduzir a população mundial é maior nos países mais ricos, onde o uso per capita de energia e de matérias-primas é maior. Um objectivo razoável é o do retorno aos níveis populacionais existentes antes do uso generalizado dos combustíveis fósseis, ou seja, um bilião de seres humanos ou menos. Este desiderato será realizado, ou através de políticas inteligentes, ou, inevitavelmente, por meio de pragas, fome e guerras.

Princípio 9. Reduzir o consumo humano de partes da Terra

A principal ameaça à diversidade, beleza e estabilidade da Ecosfera é a sempre crescente apropriação dos recursos do planeta para o uso humano exclusivo. Esta apropriação e uso abusivo, frequentemente justificados pelo crescimento excessivo da população, comprometem a subsistência de outros organismos. A visão antropocêntrica egoísta segundo a qual os seres humanos têm um direito exclusivo sobre todos os componentes dos ecossistemas - ar, terra/solo, organismos - é moralmente repreensível. Diferentemente das plantas, nós, humanos, somos heterotróficos, e precisamos de matar para nos alimentarmos, vestirmos e termos abrigo, mas isto não significa que tenhamos uma licença para saquear e exterminar. O consumo acelerado de recursos vitais da Terra é uma receita segura para a destruição da ecodiversidade e da biodiversidade. As nações mais ricas, munidas de tecnologias poderosas são as principais responsáveis por este processo, e (todavia) as que estão melhor apetrechadas para a redução do consumo e para partilharem os seus bens com aqueles cujos padrões de vida são mais modestos, mas nenhuma nação é isenta de culpa.

A ideologia mercantilista do crescimento económico ilimitado deve ser abandonada, bem como as políticas industriais e económicas que nela se baseiam. A tese dos Limites do Crescimento é sábia. O fim dos subsídios públicos às indústrias que poluem o ar, os solos, a água e/ou que destroem organismos e solos constitui um passo racional no sentido de travar a expansão económica espoliadora. Uma filosofia da simbiose, de vivência como membro das comunidades da Terra, assegurará a restauração dos ecossistemas produtivos. Para economias sustentáveis, as directrizes balizadoras são qualitativas, não quantitativas. "Cuida da saúde, beleza e estabilidade da terra, da água e do ar, e a fecundidade cuidará de si." (E.F. Schumacher - Small is Beautiful)

Princípio 10. Promover a governação ecocêntrica

As concepções antropocêntricas de governação que encorajam a sobre-exploração e a destruição dos ecossistemas da Terra devem ser substituídas por outras que visem o benefício da sobrevivência e da integridade da Ecosfera e dos seus componentes. É necessário que os defensores das estruturas e funções vitais da Ecosfera, sejam membros influentes dos organismos governamentais. Estes "ecopolíticos", conhecedores dos processos da Terra e da ecologia humana, serão a voz dos que não têm voz. Nos actuais centros de poder, quem fala em nome dos lobos? Quem fala em nome das florestas pluviais temperadas? Tais questões têm mais do que um significado metafórico, revelando a necessidade de uma salvaguarda legal dos diversos (e essenciais) componentes não-humanos da Ecosfera.

É premente a construção de um corpo de Direito Ambiental que confira tutela legal efectiva às estruturas e funções vitais da Ecosfera. Em cada país, deverão ser eleitas ou designadas pessoas ecologicamente responsáveis como membros influentes nas governações, actuando como defensores da integridade fundamental dos ecossistemas, sempre que estes sejam ameaçados. As questões que se colocarem serão decididas tendo em vista a preservação da integridade dos ecossistemas, em vez da preservação do lucro das corporações. Com o decorrer do tempo, novos edifícios jurídicos, políticos e administrativos emergirão, como sustentáculos da filosofia ecocêntrica, inaugurando modos de governação eco-centrados. A implementação a longo prazo será necessariamente feita passo a passo e lentamente, conforme forem sendo testadas formas práticas de representação e de garantia da saúde essencial dos componentes não humanos da Terra e dos seus ecossistemas.

Princípio 11. Espalhar a mensagem

Todos aqueles que concordem com os princípios precedentes, terão o dever de difundir a mensagem, através da Educação e da liderança. A tarefa inicial que urge efectuar é despertar as consciências dos seres humanos para a sua interdependência funcional dos ecossistemas terrestres, bem como para os laços que os unem às outras espécies. Seguir-se-á uma mudança de paradigma mental do antropocentrismo para o ecocentrismo, que providenciará uma ética externa, reguladora da empresa humana. Tal mudança indicará o que deve ser feito para perpetuar o potencial evolutivo desta belíssima Ecosfera. E será reveladora da necessidade de participação nas actividades da sábia comunidade da Terra, onde cada ser desempenha um importante papel pessoal na sustentabilidade da maravilhosa realidade circundante.

Este Manifesto Ecocêntrico não é anti-humano, ainda que repudie o antropocentrismo chauvinista. Através da promoção de uma busca de valores duradouros - uma cultura de conformidade e de simbiose com este Planeta vivente - propicia uma perspectiva unificadora. A perspectiva oposta, que consiste em olhar para o interior sem a compreensão do exterior, é tão perigosa como o são as ideologias humanistas beligerantes e as religiões e visões sectárias. A difusão da mensagem ecológica, enfatizando a realidade exterior partilhada pela Humanidade, abre um novo e promissor caminho, rumo à compreensão, cooperação, estabilidade e paz mundiais.

Alguns antecedentes históricos

Este Manifesto providencia um quadro unificador para o pensamento ético-ambiental mais recente que, embora maioritariamente biocêntrico, revela já tendências ecocêntricas. Vejamos três exemplos:
a) A Plataforma da Ecologia Profunda http://www.deepecology.org/deepplatform.html, desenvolvida em 1984 (revista em 2000) por Arne Naess e George Sessions. Pese embora os seus quatro primeiros Princípios indiciem uma posição biocêntrica, mais do que ecocêntrica, o Movimento de Ecologia Profunda liderou a visão segundo a qual os organismos e os ecossistemas naturais são muito mais do que meros recursos para a humanidade.
b) A Carta Mundial da Natureza (World Charter for Nature), aprovada pela Organização das Nações Unidas em 1982 http://www.oceanlaw.net/texts/wcharter.htm. Embora comece bem, apontando para a interdependência entre a vida e o funcionamento ininterrupto dos sistemas naturais, prossegue enfatizando a sua utilidade para a humanidade como sendo a razão principal para a necessidade de cuidar da Terra.
c) A Carta da Terra http://.earthcharter.org, aprovada em Março de 2000, é uma declaração ambientalista digna de nota. Os seus primeiros dois princípios - "Respeito e Cuidado da Comunidade de Vida" e "Integridade Ecológica" - estão colocados, acertadamente, acima de objectivos antropocêntricos explícitos. Associa a manutenção da biodiversidade e a recuperação de espécies em perigo à protecção da Terra e dos seus ecossistemas. Neste Manifesto enfatizamos acima de tudo o mais os valores primários da Terra.

Agradecimentos

Agradecemos às seguintes pessoas, pelo aporte de observações críticas e comentários aos primeiros esboços deste texto: Ian Whyte, Jon Legg, Sheila Thomson, Stan Errett, Howard Clifford, Tony Cassils, Marc Saner, Steve Kurtz e Doug Woodard de Ontário; Michelle Church de Manitoba; Don Kerr e Eli Bornstein de Saskatchewan; David Orton da Nova Escócia; Alan Drengson, Bob Barrigar e Robert Harrington da Colômbia Britânica; Cathy Ripley de Alberta; Holmes Rolston III do Colorado; David Rothenberg de Massachusetts; Burton Barnes de Michigan; Paul Mosquin da Carolina do Norte;

Edward Goldsmith, Patrick Curry e Sandy Irvine do Reino Unido, e Ariel Salleh da Austrália.

Os seus valiosos contributos não implicam um aval a este Manifesto, pelo qual os respectivos autores assumem total responsabilidade.